A declaração europeia da literacia como um direito básico
- Especialista
- Tempo de leitura: 6 minutos
- 03.04.2017
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As pessoas que não sabem ler corretamente deparam-se com graves dificuldades na sociedade moderna. Têm mau aproveitamento escolar, têm dificuldades em arranjar um emprego satisfatório, correm o risco de pobreza e exclusão social e - na minha cidade, Berlim - teriam dificuldade em comprar um bilhete para o sistema de transportes públicos nas nossas complicadas máquinas.
Considero alarmante que, na Europa, um em cada cinco jovens de 15 anos de idade e quase 55 milhões de adultos careçam de competências básicas de literacia, o que limita as suas oportunidades de participação cultural e cívica, de aprendizagem ao longo da vida e de desenvolvimento pessoal. É ainda mais alarmante que se tenham registado poucas melhorias em matéria de literacia nos últimos 10 anos, como demonstram os inquéritos internacionais PIRLS e PISA.
A Comissão Europeia reagiu a este desafio de duas formas:
Em primeiro lugar, em 2011 – 2012 foi criado um Grupo de Especialistas em Literacia de Alto Nível, do qual fui membro. Chegámos à conclusão de que os problemas de literacia não devem ser apenas considerados como uma questão educativa, mas como um problema mais vasto a que a sociedade deve responder como um todo. Apresentamos, no nosso relatório final, um conjunto de sugestões destinadas a diversas partes interessadas em diferentes áreas políticas.
Em segundo lugar, a UE financiou a Rede Europeia de Políticas de Literacia (ELINET), um grupo de 78 especialistas em literacia – investigadores e profissionais, voluntários e formuladores de políticas – de 28 países europeus, os quais desenvolveram um vasto conjunto de conceitos teóricos e soluções práticas com vista à promoção do desenvolvimento da literacia desde a nascença até ao fim da vida. Um grupo de trabalho da ELINET¹, ao qual presidi, redigiu uma Declaração Europeia da Literacia como um direito básico. Os pontos centrais desta declaração são os seguintes:
Todas as pessoas na Europa têm direito à literacia. Os Estados-Membros da UE devem assegurar que sejam facultados às pessoas de todas as idades, independentemente da sua classe social, religião, etnia, origem e género, os recursos e as oportunidades necessários para desenvolverem competências de literacia suficientes e sustentáveis por forma a compreenderem e utilizarem de modo eficaz a comunicação escrita, seja ela manual, impressa ou digital.
Há mais de 50 anos que a literacia é reconhecida como um direito humano no âmbito de várias declarações e iniciativas internacionais. Contudo, o nosso grupo da ELINET considera estas declarações universais demasiado vagas. Foi por essa razão que definimos 11 condições essenciais para pôr em prática este direito básico à literacia:
- As crianças pequenas devem ser incentivadas em casa na aprendizagem da língua e da literacia. É de especial importância ler livros com elas durante o primeiro ano de vida.
- Os pais devem receber apoio para ajudar os filhos a aprender a língua e adquirir literacia, proporcionando-lhes orientações acessíveis e, quando necessário, programas de literacia familiar.
- É necessário um ensino pré-escolar ou infantários de alta qualidade para promover o desenvolvimento da língua e da literacia emergente pelas crianças.
- A instrução de alta qualidade das crianças, dos adolescentes e dos adultos em literacia deve ser considerada como uma missão central de todas as instituições educativas.
- Todos os professores devem receber formação pedagógica inicial e desenvolvimento profissional no ensino da literacia a fim de estarem bem preparados para o desafio de elevar os níveis de literacia na sala de aula.
- Deve ser promovida a competência digital de todos os grupos etários.
- Deve ser ativamente promovido e incentivado o prazer da leitura.
- As bibliotecas devem ser acessíveis e estar bem apetrechadas. Gostaria muito que tivesse sido assim na minha infância: no período do pós-guerra, o facto de as crianças só poderem pedir de empréstimo na biblioteca pública dois livros de duas em duas semanas constituía sempre uma enorme desilusão.
- As crianças e os jovens que sentem problemas de literacia devem receber apoio especializado adequado.
- Os adultos devem ser apoiados no desenvolvimento das competências de literacia necessárias para participarem plenamente na sociedade.
- Os formuladores de políticas, os profissionais, os pais e as comunidades devem trabalhar juntos para garantir igualdade de acesso à literacia, colmatando as lacunas nos planos social e educativo.
O texto integral da declaração apresenta mais informações e exemplos sobre como concretizar estas condições. A versão abreviada da declaração está disponível em 22 línguas no sítio Web da ELINET, juntamente com um vídeo em inglês.
Acredito que nunca é demasiado tarde para confrontar o desafio da literacia. Procuremos todos desempenhar o nosso papel, seja como profissionais da educação, como pais ou como formuladores de políticas. Está muita coisa em jogo para que não o façamos.
A Dra. Renate Valtin, Professora Emérita da Universidade de Humboldt em Berlim, membro do Reading Hall of Fame, é atualmente presidente da Federação das Associações Europeias de Literacia e das Associações Internacionais de Literacia e pertence à equipa alemã do PIRLS.
- Os membros do Grupo de Trabalho eram: Renate Valtin (presidente), Viv Bird, Greg Brooks, Bill Brozo, Christine Clement, Simone Ehmig, Christine Garbe, Maurice de Greef, Ulrike Hanemann, Kees Hammink, David Mallows, Fabio Nascimbeni, Sari Sulkunen, Giorgio Tamburlini.
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